Revolta (criado em uma epoca em que eu me perdi)

É SÓ UM GRITO DE REVOLTA E DOR QUE ADORMECE MEU CORAÇAO, ESQUECENDO O QUE É BOM,
E SÓ UM MODO VIVER SEM A NIGUEM PERTENCER,BATENDO E APANHANDO BRIGANDO PRA VIVER,
É SÓ UMA REVOLTA SEM CAUSA QUE CRESCE A CADA DIA INFERNIZANDO A MINHA VIDA,
É SÓ UMA QUADRILHA QUE ROUBA E MATA SONHOS E NOSSA VIDA,
É SÓ UMA MEDIDA QUE TERMINA UMA RATA DE BATIDA,
É SÓ UMA FORMA DE ENCARAR O MUNDO COM ARMADURAS FORTES E AGRECIVAS,
É SO UMA CONTINUAÇÃO DE UMA MENTE PERTUBADA E PERDIDA.

Buscando entender

Olá sou um rapaz tentando entender e muitas coisas e até tentando explicar. Não sou o mais perfeito muitos o mais errado, posso até errar ou acertar, mas nunca desisto de tenta.
Posso ser um ser tão bondoso quanto o mais odioso dos andantes racionais, também posso ser o maior dos idealistas assim como também o pior dos pessimistas. Não vou discordar das palavras aléias, pois também podem ser a mais pura verdade assim como mais pura asneira.
Como posso eu definir o bom ou maléfico, pois muitas das pessoas não falam o que acham certo. Não posso discordar de seus medos, pois olhar nos olhos e mais difícil que calcular a matriz central do universo e mesmo assim erramos mesmo ao olhar nos olhos e entendermos o certo de fato.
Todos nós tentamos, mas nem os maiores filósofos da psicologia conseguem entender o exato pensamento do homem antigo ao moderno, somos tão escuros quanto ao fosco do perto e tão ocultos quanto o maior segredo de quem mato Kennedy.
Quem somos afinal, o que devemos fazer e para que somos feitos afinal, qual papel a desempenhar na natureza que era tão perfeito que a desfiguramos como um rosto mergulhado em líquidos termados de alto calor.
Uma disfunção da natureza, uma experiência de um ser extraterrestre que deu errado.
Não acho que é pra tanto, mas ainda procuramos nossa função enquanto isso vou tentando fazer de minha vida algo útil para que eu não errei tanto então.

P.S.A.

Enchergares

Como posso errar, se o erro ja foi consebido
Apenas tento entender como posso com o bandido
Não preciso roubar nada, nem a fama dos mais vistos
Mas posso simplismente persoadir o roubo do bandido
Transformando seu roubo em erro mais visto
Pintando os quadros com cenas do que foi perdido

P.S.A.

Como podemos chocar o mundo

Como podemos chocar o mundo
Se não há um ninho igual
Para o corpo de um ser puro
Possa transmitor o calor
Para mostrar em ardor
O simples erro de tudo
Como podemos chocar o mundo?

P.S.A.

O que eu sou

Sou homen
Sou menino
Sou anjo ou demonio

Desfunção da natureza
Abominação da humanidade

Sou ator
Sou ouvinte

Um louco ao vento
Um insano ao relento

Sou seu vicio
Sou sua prece

Sou apenas o que tu queres

P.S.A.

Dedicado

Dedico a ti estas palavras
Dedico a ti essa homenagem

Minhas palavras graças a ti
Minhas palavras reguriao graças a ti

Dedico a ti minhas palavras

Fores o mestre o que eu necessitei
Fores o mestre que me ativou
Fores o mestre que me libertou

Dedico a ti estas palavras

Fizestes meus horizontes
Fizestes meus diagonais
Fizestes minha verticais

Dedico a ti estas palavras

Deixaste aqui a saudade
Deixaste aqui a lealdade
Deixaste aqui o amor

Dedico a ti estas palavras

Gabriela e seu jeito Lipari de ser

P.S.A.

Novembro

Como podemos nos apegar na passagem do tempo
Nosso psicologicos muito faceis se apegam
Como podemos nos deparar ao ver um tempo se acabar
E so chegar o fim de tempo e nos vemos sozinhos outra vez
Como podemos deixar o a passagem de um tempo nos culpa na solidão
E vemo sessa passagem de tempo nos deixando outra
Como podemos prometer que antes da passagem desse tal tempo faremos
E vem logo a tristeza quando vemos que essa passagem de tempo esta se indo e nada fizemos
Porque essa passagem de tempo nos culpa tanto e nos deixar logo no final a saudade do não acontecido,
E do que não conseguimos em nossas promessas.

P.S.A.

Carater

Quando nos deparamos com a bera de um penhasco, logo pensamos como é cair e toda dor que nos causaria ao se despencar ali.
Desse jeito mostramos nosso carater a nos mesmo, vendo o quanto nos valorizamos.
Mas quando perdemos o carater não pensamos na dor da queda e simplesmente nos deixamos nos empurrar.
Carater o que seria isso pra vc?

P.S.A.

Me ignoras, mas…

Sei que me renegas e que não queres mais falar comigo
Sei que queres que me afaste
Sei que não queres mais me ver
Mas também sei oq ue foi importante estar com você
Mas não sei o porque não queres falar comigo
Porque tão rapido
Porque não prolongas
Porque não
Apesar tudo que penses
Penses apenas isso
Todo os dias penso em ti
Todos os dias torço por ti
Todos os dias felicidades pra ti

P.S.A.

Traição

Por Graciliano Ramos

“Prezado amigo”

“Não tenho ânimo de assinar esta carta, nem de escrevê-la com a minha letra. Venho participar-lhe um ingente infortúnio. Prepare-se para receber a notícia mais infausta quer um homem de brio pode receber.
Saberá que servem de assunto a boateiros desocupados as relações pecaminosas que existem entre sua esposa e o guarda-livros da firma Teixeira & Irmãos. Envidei sumos esforços para reprimir comentários desabonadores. Inutilmente. O indigno auxiliar do estabelecimento que o amigo dirige, com muita competência, esqueceu benefícios inestimáveis e, mordendo a mão caridosa que o protegeu, ação negra, condenada com estrofes imortais pelo nosso imperador, ousou levantar olhos impudicos para aquela que sempre reputamos um modelo de virtudes.
E os sentimentos libidinosos do celerado foram bem acolhidos. Alguém viu esse ingrato passeando com a amante pelos arrabaldes, na aprazível companhia de uma respeitável matrona e duas gentis meninas, ignorantes das maldades que pululam neste mundo de provações. Também se julga com fundamento que o nefando par esteve umas tarde no Tanque, à sombra frondosa das mangueiras, como diz o poeta.
Enfim, meu caro, o seu nome está sendo atassalhado, vilmente atassalhado em todos os recantos da urbe.
Há poucos dias, num bilhar, o sedutor teve discussão acalorada com o digno órgão de justiça pública. Foram quase às vias de fato, e no decurso da contenda surgiram referências prejudiciais à honra de sua excelentíssima consorte.
Penalizado em extremo, trago-lhe estas informações lamentáveis. Peço ao Divino Mestre coragem e resignação.
Sou um dos seus amigos mais sinceros”.

Deixei cair a folha datilografada sobre o diário. Depois senti nojo. Afastei-a com as pontas dos dedos e abri o razão. Creio que não pensava em nada. Ou talvez pensasse em tudo, mas era como se não pensasse em nada. Pus-me a tremer com violência e a bater os dentes. Percebi que aquela atitude me condenava e esforcei-me por cerrar os queixos e dominar os músculos, o que não consegui.
-João Valério – gemeu Adrião – peço-lhe que me diga com franqueza…

Esfreguei os olhos para afugentar uma nuvem escura que flutuava entre mim e o livro aberto.
-A verdade, João Valério.

Atento no velho com espanto: tinha-me esquecido da presença dele.
-A verdade…

E lembrei-me de Nicolau Varejão, do doutor Liberato e do Miranda.
-Sim, João. Leu o papel?
-Que papel?

Meti os dedos pelos cabelos, sacudi-me para vencer um entorpecimento que se apoderava de mim. Adrião Teixeira avançou a mão e levou uma eternidade a apanhar a carta, que me entregou pela segunda vez. Reli aquela imundície e compreendi que era trabalho do farmacêutico. Estabeleci alguma ordem nas minhas idéias e contive os nervos. Afinal Adrião não tinha visto nada.
-Então, Valério, não responde?
-Responder… Ora está aí. De duas uma: ou o senhor não acredita, e neste caso…

Olhei, por cima das grades do escritório, as pipas de aguardente e os sacos de açúcar.
-Ninguém. Foram jantar. Continue – fez Adrião – E deixemo-nos de palavrórios difíceis, que não gosto deles. É verdade ou mentira?
-Mentira, naturalmente.

Depois de longo silêncio, Adrião falou desalentado:
-Sou uma besta. Não vai confessar, é claro. Mas… nem sei. Desde ontem esta miséria! Não dormi.

Acendeu um charuto, sentou-se, pesado, junto à máquina de escrever.
-Vamos, João! – exclamou. – Eu preciso tomar uma providência, uma providência razoável. Desquite, separação decente.
-Não há nada – assegurei fechando os livros. – Era o que eu ia dizer há pouco. Se o senhor não der crédito a esta infâmia, pode dispensar a minha resposta; se der, ainda que eu jure mil vezes…
-E você é capaz de jurar, homem?
-Com certeza.
– Ah, sim! – murmurou o infeliz. – Não crê em Deus. Não crê em nada. Ninguém crê em nada. E pensar que o tive em conta de filho! pensar que…Vão-se embora.

Interrompeu-se para falar a Vitorino e aos empregados, que entravam.
-Fechem, podem retirar-se. Cinco horas? Bem, deixem uma porta aberta. E você mano… Fechem isso! Por quem esperam?

Quando eles saíram, soltou o charuto apagado, cruzou as pernas e pôs-se a bater com o calcanhar no tablado do escritório. De repente levantou-se, agitou os punhos:
-E eu o julguei amigo seis anos! É duro! E tinha inteira confiança… Podia imaginar tudo neste mundo, tudo, menos isto. Ainda ontem descansado, longe de sonhar… Defenda-se.

Por amor de Luísa, menti descaradamente:
-Defender-me? E de quê? Eu tenho lá que me defender! Uma carta anônima. Isto vale nada!
-E a sua cara! Você nem sabe mentir.
-É suposição. Não tem fundamento. Que foi que o senhor viu? Notou alguma transformação em sua casa? Não notou. E então! Quer à fina força que eu confirme esse disparate que o Neves inventou, o Neves, um sujeito conhecido.
-O Neves?
-Não foi outro. Não há aqui ninguém capaz de semelhante patifaria. O Divino Mestre, leia. É ele, não tem dúvida. E o mundo de provações, veja. Não foi senão ele.
-É exato – ciciou Adrião. – Deve ter sido ele. Um malandro. Mas o casso é este: andam atassalhando o meu nome em todos os recantos não sei de quê, pelos bilhares. E o culpado é você.
-Eu? Eu tenho nada com isso! É um absurdo, uma acusação injusta, sem prova. Não me defendo. De quê?

E cruzei os braços. Adrião encarou-me:
-É possível que você esteja inocente. Se estiver, perdoe-me. E é possível que seja um traste. De qualquer maneira compreende que não pode ficar nesta casa.
-Compreendo.
-É necessário sair logo.
-Perfeitamente.
-Vamos então balancear isto. E faça-me um favor. Promete?
-Prometo – respondi sem refletir.
-Pois bem. Eu sei que você recebeu uma proposta do Mendonça. Aceite agora a proposta. Amanhã liquida aqui os seus negócios e coloca-se lá. Depois de um mês, deixa o Mendonça e vai para o Recife ou para a Bahia. Acho conveniente não mudar-se logo, para não dar na vista. O Mendonça… você entende… melhor ordenado… um pretexto. Fale com ele. Estamos de acordo? O mês vindouro, como ficou resolvido, para a Bahia. Leva uma carta de recomendação.
-Muito obrigado. Estamos de acordo, mas não aceito a recomendação. Vou para o Rio.
-É bom. E amanhã o balanço.
-Até amanhã.

Saí. Entrei no estabelecimento do Mendonça. Mendonça não estavas. E Mendonça filho? Também não estava, fora passar uma procuração no cartório do Miranda.

Corri em busca de Isidoro, queria confiar-lhe tudo.
-Ó dona Maria, chame o Pinheiro – gritei da porta.

Tinha ido à casa do Miranda. Respirei com alívio, porque de súbito me havia aparecido um grande acanhamento de contar aquela desgraça.

Desci a rua dos Italianos e estive de longe olhando o jardim, a varanda do casarão. Senti um nó na garganta, engoli um soluço e dirigi-me à rua de Baixo, como se fosse tratar de algum negócio urgente. Não ia tratar de coisa alguma, mas precisava agitar-me, andar depressa.

Ao passar pela rua Floriano Peixoto, achei conveniente embriagar-me: subi ao Quadro, fui ao Bacurau e pedi conhaque. Bebi um cálice, pedi outro, pedi o terceiro. Acendi um cigarro e esperei o efeito do álcool. As minhas idéias tornaram-se mais lúcidas; o que senti foi um aperto no coração e desejo de chorar. Bebi o último cálice, levantei-me e enfiei pela rua de Cima.

Adiantei-me até o Melão. Noite fechada. Recuei, decidido a procurar padre Atanásio, distrair-me conversando com ele. Dei uma caminhada ao Chucuru.
-Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não se via quem falava, porque a escuridão era grande. Nem se ouviam os passos: o vulto movia-se como uma sombra. Mas pela voz, muito suave, reconheci o caboclo. Que andará ele fazendo por ali àquela hora? Talvez procurando recurso para me pagar quinze mil réis que lhe mandei quando esteve preso. Pagava. Mata para roubar, mas não deve dinheiro a ninguém.
-Boa noite, Manuel Tavares. Passeando?
-Sim e não. Sim porque gosto de caminhar, não porque estou de serviço. Vou levar um ofício a Quebrangulo.

Recordei o corpo de gigante, as mãos enormes, os olhos miúdos, o rosto duro, a barba emaranhada, tudo a contrastar com a doçura da voz.
-Do promotor, o ofício?
-Não senhor, do doutor delegado. E agora estou ajudando o destacamento.
-Ah! Você é soldado?
-Sou e não sou. Soldado, propriamente, não sou. Pra fazer sentinela não sou. Mas quando há diligência, trabalho do cão, e os macacos do governo amanhecem, sou.
-Pois é um bom emprego, Manuel Tavares. Continue.

Às nove horas entrei na redação da “Semana”. Padre Atanásio, debruçado sobre a mesa, dormia profundamente, o rosto escondido nos braços. Respirava com ruído e tinha roxas as orelhas enormes. Sentei-me à banca que foi minha, lá desocupada desde janeiro. Obedecendo a um velho hábito, abri a gaveta e tirei um maço de aparas de papel.
-Por aqui, seu Valério! – exclamou o sargento chegando à porta da tipografia. – Pensei que nos tivesse deixado. É uma ingratidão. O seu Pinheiro é que não falha, pontual, firme nas Sociais. Quer que acorde o patrão?

Fiz um gesto negativo com a cabeça.
-Sabe se o doutor Castro está na cidade, sargento? – perguntei bruscamente, levantando-me.
-Não sei. Ele também aparece aqui às vezes. Até escreveu uma poesias. O senhor leu? Uma história de luar e de sapos. Saiu no fim da quarta página. O reverendo meteu dois versos que faltavam, mas seu Miranda diz que está tudo quebrado. Brigaram. Julgo que o casamento gorou. O senhor não traz nada?
-Não trago nada, sargento. E isso é exato, a briga deles? Adeus.

Que azar de Clementina! Sempre os casamentos que dão em ossos de minhoca! Melhor para ela. Antes continuar arranhando, que um marido como aquilo não presta. É melhor para mim: ia procurar o Pinheiro, o que não faria se receasse encontrar o bacharel.

Ao passar pela casa do Miranda, vi Clementina na janela:
-O Pinheiro está aí, dona Clementina?^
-Está, sim senhor. Fizeram um jogo lá dentro, por causa do doutor Barroca, que chegou hoje.
-A senhora faz o obséquio de pedir a ele que venha até aqui?
-Ao doutor Barroca?
-Não senhora, ao Pinheiro.
-Pois não. Por que não entra? Estão na sala de jantar, o Valentim Mendonça também. Entre.
-Ah! O Mendonça está aí?

Acompanhei-a. Diante da mesa de jogo falei duas vezes antes que os parceiros me respondessem: tinham os olhos em chamas e puxavam as cartas uma a uma, lentamente. Finda a partida, Evaristo Barroca estendeu-me a mão com aquele modo de superioridade protetora, que lhe fica bem e que abomino.
-Ó Pinheiro, dá-me aqui fora uma palavra? É um instante.
-Impossível, meu filho, inteiramente impossível. Ocupadíssimo. O poker é uma grande instituição. Faça uma perna.

Detesto as cartas, mas naquela ocasião julguei que elas me seriam úteis. Se o Teixeira soubesse que eu tinha estado a jogar, talvez se imaginasse injusto.
-O senhor entra? – pergunto Evaristo baralhando.
-Entrada de quanto?
-Cem mil réis – disse o tabelião entregando-me as fichas.

Paguei e sentei-me.
-Cinco mil réis?
-Cinco – respondeu Evaristo. – O senhor joga? Pois sou forçado a reabrir. Quer cartas?
-Duas.

Evaristo Barroca soltou o baralho.
-Fala o senhor.
-Mesa.

E pensei nas amarguras que me iam aparecer no dia seguinte. O que eu devia fazer era esperar o Neves à saída da sessão de espiritismo e dar-lhe uma sova. Era o que eu devia fazer, mas sou um indivíduo fraco, desgraçadamente.
-Para iniciar aposto apenas uma – disse Evaristo com aquela voz sossegada, aquele olhar tranqüilo que nunca mostra o que ele tem por dentro.
-Vejo, doutor.

E atirei a ficha.
-Que tem o senhor? – perguntou ele.

Mostrei uma trinca de damas.
-Ganha.

E franziu os beiços delgados.
-Homem, essa agora! – exclamou Valentim Mendonça. – O doutor estava feito. Como foi que o senhor conheceu que aquilo era bluff? O doutor não pediu.

Abandonei um par de ases.
-Preciso falar com o senhor hoje ou amanhã cedo, seu Mendonça. Com o senhor e com seu pai. Ele está aí?

Mendonça filho levantou o queixo quadrado e propôs que fôssemos procurar Mendonça pai. Se era assunto de interesse, devíamos ir logo.
-Como! – bradou o Pinheiro. – Negocia a esta hora? ÉR uma indignidade. Outro bluff, doutor? Muito bem. O bluff é uma grande instituição. Dê carta, Mendonça, que diabo! Você está namorando com o Valério?

Arrancou uma reabertura com trinca branca e atacou o Miranda, que tinha seqüência.
-É possível? Você pede duas e faz seqüência? E máxima? Abra os dedos, criatura, isso assim na mão ninguém vê. Confiança, naturalmente, mas jogo é na mesa e tenho visto muita seqüência errada.

Joguei duas horas, distraído.

O que eu queria era saber por que razão não me vinha o ânimo de esbofetear o Neves numa tarde, à porta da farmácia. No bilhar do Silvério levantei o taco para rachar a cabeça do doutor Castro. E arreceava-me de molestar o Neves. Por que será que aquele velhaco me faz medo?
-Joga?
-Jogo – respondi separando três reis.

Evaristo reabriu.
-Outra reabertura, doutor? Santa Maria! O senhor leva o dinheiro todo – reclamou Valentim Mendonça.

Tirei um rei. Evaristo e Mendonça não quiseram cartas.

Já que me faltava coragem, não seria mau dar cinqüenta mil réis a Manuel Tavares e mandar que ele desancasse o boticário, no Chucuru, que é quase deserto.
-Fala você, João Valério – resmungou o tabelião. – Assim, não se acaba isto.
-Aposto duas.
-Duas e mais quatro – disse Evaristo.

Mendonça fugiu.
-Vem ver?^- perguntou o Barroca.
-Não senhor, reaposto. Mais quatro.

E deitei na salva as oito fichas que me restavam.
-Vamos então com mais oito – gracejou Evaristo. – E desta vez estou forte, pode crer.
-Ainda, resposta, doutor? Vejo. Dê-me aí oito fichas, Pinheiro. Vejo com um four sde reis.
-Perde – fez Evaristo calmamente.

E mostrou um four de ases. Levantei-me.
-Safa! – exclamou Valentim Mendonça. – Já é ser caipora. Onde estava eu metido! Deixa? Também vou. Os senhores continuam?

E contou as suas fichas, aspressado, entregou-as a Nazaré para recolher.
-Ó Pinheiro – chamei – quando você voltar para casa, preciso falar-lhe, ouviu? Boa noite, meus senhores.

Isidoro, que chorava as cartas com ferocidade, teve um grunhido que terminou numa praga:
-Ora pílulas! Estas miseráveis estragam tudo no fim. Vão-se embora, hem? É uma traição.

Saímos. Quando nos separamos, à esquina da padaria, Mendonça interrompeu o estribilho que ia cantarolando:
-Então esse negócio que tem conosco…
-É isto. Os senhores me fizeram uma proposta por intermédio de padre Atanásio.
-Sim, em dezembro.
-E escreveram insistindo. Respondi que não aceitava, mas que, se me desempregasse, contassem comigo. Caso ainda estejam pelo oferecimento… Deixo os Teixeira.

Lembrei-me de que tinha prometido a Adrião só ficar na cidade um mês.
-Isto é, se houver vaga. Não quero prejudicar ninguém.
-Há vaga – confessou Mendonça. – O guarda-livros de lá enrascou a escrituração e levou-o o diabo. O senhor teve algum pega com os Teixeira?
-Ah! Não! É que há vantagem. E ando necessitado. A crise… Adeus.
-Apareça.

Desci até o fim dos Italianos, encostei-me à esquina do armazém.

Vigia prolongada. Se pudesse falar com Luísa… De quando em quando surgiam sombras entre as palmeiras do jardim, mas era a minha impaciência que se distraía a criar fantasmas. Acerquei-me da grade.

Esperança doida de encontrar Luísa. Que lhe teria dito o Adrião? Imaginei-o de pijama e chinelos, coxeando pelo quarto, a bradar com os punhos cerrados: “Pensar que sempre tive confiança na senhora! Defenda-se!”. E a carta, cem vezes relida, amarrotada entre os dedos magros.

Desgraçado desejo de conhecer as coisas. Melhor teria sido para ele não acreditar na denúncia e continuar como ia.

Voltei para a calçada do armazém e ruminei o procedimento do Neves. Que interesse tinha ele em revelar aquilo? Nenhum. Mostrar que sabia.
-Animal infeliz! – exclamei em voz alta.

Referia-me ao Neves, a Adrião, a mim, ao Miranda Nazaré, a toda a gente. Necessidade idiota de saber e espalhar o que sabemos. Depois de muitos dias ou muitos anos de canseira e conjetura, um sujeito descobre uma lei da natureza – outro faz uma carta anônima contando os amores de Luísa Teixeira com um João Valério como eu.

(Capítulo 26 do romance “Caetés”, Editora Schmidt, Rio de Janeiro).

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